Uma outra forma de vida dekassegui - Parte 1
Neste artigo, David Markle relata como conseguiu fincar residência no Japão. De uma maneira totalmente diferente, sem gastar dinheiro ou ser empregado: fazendeiro autônomo.
Não sei se alguém considerou estabelecer residência em um dos países mais densamente povoados e caros do mundo. Japão provavelmente não vem à mente quando pensamos em comprar uma fazenda ou terreno, mas devido a alguns fatores interessantes em termos demográficos e econômicos, o Japão deveria constar na lista de toda pessoa considerando residência, especialmente se você pretende ter filhos. Te digo o porque neste artigo.
Para qualquer pessoa que tenhá visitado ou pensa em visitar o Japão, as imagens de arranha-céus de Tokyo e hordas de gentes vivendo em residências minúsculas cujo aluguel mensal é mais do que a renda de um ano de salário em vários países vem à mente. Mas há um outro Japão. Estou falando de um Japão rural, longe das cidades. Onde o ar é limpo, a água é pura, casas são maiores, a oferta de terrenos é ampla, o custo de vida é uma fração do que é na cidade, as pessoas são (quase) sempre amigáveis e as prefeituras locais te pagam para morar nos vilarejos. Não estou brincando. Obviamente ninguém fica rico fazendo isso, mas, acredite ou não, muitas cidades estão competindo entre elas para recrutar famílias (especialmente aquelas com crianças novas) para se deslocar para suas cidades. Eles oferecem todo o tipo de incentivos e apoio para tentar “revitalizar” os seus vilarejos.
A razão para isto é a demografia. Para começar, o Japão tem uma das taxas de natalidades mais baixas e vida media mais altas do mundo. Qualquer coisa em torno de 1,54 filhos por casal. Não há crianças o suficiente para sustentar o envelhecimento crescente da população. Há muita gente ativa em seus oitenta e muitos vivem bem em seus noventa. Não há pagadores de impostos em número suficiente para dar suporte as pessoas idosas em sua aposentadoria. Outra razão para isto é que, por razões demasiadamente complexas para se explicar aqui, jovens preferem não viver ou permanecer em zonas rurais. As economias destas áreas são baseadas em agricultura e a cidade, com suas luzes brilhantes pagando melhor por empregos com mais status, tendem a atrair os jovens. Combine esses dois factores e o que você têm como saldo são muitas e muitas cidades pequenas e vilarejos rurais (10.000 pessoas ou menos) perdendo cada vez mais jovens, pagadores de impostos, cidadãos produtivos, com menos e menos nascendo. Isto resulta num envelhecimento crescente da população com aposentados ou semi-aposentados tomando vantagem mais e mais de serviços sociais, em seus “anos dourados”. Em 10 anos ou mais, muitas dessas localidades serão asilos de velhos ou deixarão de existir completamente.
Ter filhos no Japão?
O governo federal reconhece o problema dessas comunidades que a nação como um toda enfrenta. Isso resultou num número de “planos de ação” para tentar reverter as coisa. O governo federal dá um subsídio de 300.000 ienes (cerca de US$ 3.000,00) para qualquer mulher que tiver filho no país. Governos locais, em alguns casos, pagam adicionais. O vilarejo em que vivemos paga adicionamente 300.000 ienes, elevando o total a cerca de US$ 6.000. Isso normalmente mais do que cobre o custo de ter um bebê em hospital. Na verdade, tenho ouvido falar de casos de pessoas ganhando dinheiro com isso, utilizando parteiras (que cobram menos que hospitais), pesquisando maternidades mais baratas, reduzindo a sua estadia no hospital para diminuir custo, fazendo o marido trazer refeição durante o seu tempo de permanência no hospital e muitas outras maneiras bem boladas de reduzir custos com nascimento para obter algum lucro. Algumas cidades pagam mais, outras menos. E mais, o governo local e federal dão atendimento médico e dentário para a criança durante os três primeiros anos de idade. Mesmo que a criança tenha um grave defeito de nascimento e necessite hospitalização constante. Está se discutindo agora em aumentar esse período para cinco anos ou até a criança entrar escola, mas isto ainda vai levar tempo. Fora isso, o governo vai lhe dar 5.000 ienes por mês durante 5 anos para ter tido a criança. Se tiver duas, você ganha 5.000 ienes adicionais por mês. Do terceiro filho em diante, será dado 10.000 ienes por mês para cada crianca. Sei de uma família de religiosos agricultores num outro lugar do país que vive deste subsídio. Eles tinham 7 filhos! A condição é que a família deve fazer parte do programa de Seguro Nacional de Saúde. Isso pode desmotivar algumas pessoas, mas posso acrescentar que ele é bem razoável e a taxa a ser paga é baseada na sua renda. Qualquer um, estrangeiro ou não, pode fazer parte e não fazem perguntas sobre condição atual. Mais adiante falo disso.
Várias cidades da nossa região tentam aliciar famílias com crianças, oferecendo diversos incentivos. Impossível dar pormenores de todos os programas mas devo acrescentar que a maioria das cidades não oferecem nada “oficialmente” ou não divulgam o que oferecem. Certamente nem todos os lugares oferecem possibilidades, mas posso dar alguns exemplos que me são familiares.
Um vilarejo montanhoso, de idosos, oferece incentivo em dinheiro de 30.000 ienes por criança inscrita no sistema escolar público, juntamente com subsídio de habitação e um subsídio a título de “custo de viagens” de 40.000 ienes por mês para o tempo morado no vilarejo. Existem condições a serem cumpridas no entanto. Você deve concordar em permanecer no vilarejo por pelo menos 5 anos e se você sair antes do prazo, todo o dinheiro recebido deve ser devolvido. Isso soa bem, mas eles só é oferecido a famílias onde o gerador principal de renda da família estiver com menos de 40 anos de idade. Crianças em fase escolar recebem um pequeno “subsídio” para despesas escolares e passe livre de ônibus. Uma cidade montanhosa antiga de mineração nesta região oferece moradia gratuita ou subsidiada (novamente, com taxa baseada em renda), para famílias com crianças em escola primária que queiram residir no vilarejo. Isto pode soar razoável, mas de maneira geral as residências estão em estado ruim e são muito pequenos para a maioria dos ocidentais. Mas é atraente a famílias com crianças “problema” que não se encaixam em outros lugares. Não existe tal coisa como “terra arável”, ja que o vilarejo se situa num lugar muito íngreme. Outro vilarejo que vimos alugam casas antigas desocupadas que o governo local comprou por valores nominais, algo como 5.000 a 1.0000 ienes por mês. O valor do aluguel, mais uma vez mais, depende da renda. Nós realmente gostamos do lugar. A desvantagem é que alguém que mora no vilarejo deve “patrocionar” ou seja, ser o fiador da família que se muda para o vilarejo. A menos que você tenha parente consanguíneo morando lá, as chances de encontrar alguém disposto a ser fiador são remotas. Em alguns lugares o próprio pessoal da prefeitura do vilarejo será o fiador se a pessoa/família pode oferecer algo que o vilarejo quer e precisa. Uma fábrica ou empresa produtora de empregos é ótimo; uma escola de línguas ou um negócio na área de educação também é bom. O que eles desejam é investimento e compromisso.
Vários municípios dão até casa para viver, sim, isso mesmo, uma casa, mas olhe com atenção, muitas vezes elas precisam de reparos ou reformas grandes, como novo telhado, fiação, etc. O outro lado da coisa é que muita gente (eu próprio incluído) pode ter sonhado em viver numa casa rural japonesa antiga com fogo a lenha (a casa que ocupo agora foi construída há 200 anos). A realidade é outra coisa. Eles nunca ouviram falar de isolamento térmico ou encanamento interno na era Meiji. Eu sei de um estrangeiro que comprou uma casa rural antiga e cuidadosamente restaurou a sua condição original. Uau! Outro lugar que conheço vai “dar” o terreno para você desenvolver. Sim, dar, mas você deve trabalhar nela e morar no mínimo 20 anos. O número de programas é tão grande e variado quanto é o número de vilarejos tentando se “revivar” (ou dar o último suspiro). Dê uma olhada com atenção antes de decidir. Pergunte a si mesmo: “eu realmente quero gastar boa parte da minha vida (e meu patrimônio) neste país e local?” É uma pergunta difícil.
Outra opção é rota “não oficial”. Escolha o local que você quer morar, vá lá e dê uma olhada no preços de “ryokan” ou pousada. Pergunte por preços de estadia semanal ou mensal. Todos eles têm, mas você pode ter que ficar em um quarto no fundo ou no sótão se quiser algo a preco razoável. Passe algum tempo no vilarejo e tente conhecer as pessoas. Estabeleça uma rotina diária. Compre na mesma loja alguns dias em seguida. O dono da loja então provavelmente irá lhe perguntar de onde você é e o que está fazendo no vilarejo. Seja amigável. Diga a um número maior possível de pessoas o que você está procurando. Possivelmente você encontrará alguém que vai te indicar um outro alguém que quer vender ou alugar o lugar perfeito que você procura. A barreira linguística é o maior obstáculo. Pode ser que alguém se disponha a ser tradutor, alguém que goste de falar inglês, e faça amizades com ele ou ela. Uma das vantagens desse método é que você poderá manter um certo grau de privacidade, mas não tenha qualquer dúvida que funcionários publicos locais, mais cedo ou mais tarde, irão descobrir o que você está fazendo.
A reação deles dependerá de muitas coisas, principalmente se você é percebido como tendo algo de valor para acrescentar à comunidade local, o que você está realmente fazendo e se existem reclamações. Muito provavelmente vão te deixar a vontade desde que você não infrinja leis. Dê um presentinho (dinheiro não) para a polícia local e se apresente. Pelo amor de Deus, não ponha garrafas de vidro no lixo no dia de latas de alumínio! Isso te dar mais trabalho que engravidar a filha do prefeito.
Em nosso caso, gastamos um bom tempo procurando pelo “lugar certo”. Nas zonas rurais do país, devido ao número dos proprietários que morrem sem herdeiros dispostos a “cultivar a terra”, há uma abundância de terrenos pequenos cujo proprietário tem interesse em alugar ou emprestar gratuitamente mesmo que seja apenas para evitar que as ervas daninhas tomem conta da propriedade. Tenha em mente que você pode construir quase que qualquer tipo de estrutura sem muita interferência mas é esperado que o local seja restaurado à sua condição original quando você deixar o local. Há também um monte de fazendas velhas abandonadas e desocupadas e que podem ser compradas ou alugadas. Mas note que alugar é difícil devido à lei de aluguel que protege o inquilino. Encontrar alguém disposto a alugar é difícil mas não impossível; nós conseguimos. Eu pessoalmente recomendo alugar em vez de comprar já que isso mantém o pessoal da prefeitura fora, baixa o imposto a ser pago e, portanto, limita o seu risco. Estamos neste momento em processo de criação de uma fazenda de mirtilo e framboesa em terras recuperadas. Nós também alugamos e cuidamos de um pomar de caqui. Estou atualmente investigando uma espécie de batata peruana que é popular entre os entusiastas da alimentação saudável, têm bom preço de mercado no momento e, supostamente, cresce bem na nossa área. Quase todo mundo que nos rodeia nesta parte do país cria uvas de mesa Kyodo. Outros tipos de uvas são possiveis; criação de uva para vinho é outra se esse é o seu sonho. Existem algumas adegas locais nas proximidades, por que não começar um? Estrangeiros podem atrair atenção no Japão se quiserem.
[continua na parte 2]
Tradução do artigo “ Down on the Farm - Homesteading In Japan” por David Markle; datado de 25/Jan/2001.
Publicado sem autorização. O autor e a editora não responderam ao nosso pedido.
Traduzido pela Web Town.
Este artigo serve apenas como referência e pode acontecer dele não estar atualizado.
Tags: dekasegui, dekassegui, fazendeiro no Japão, fincar raízes no Japão, morando no Japão
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Destaques
Ponto de vista de um americano. Não, o autor, David Markle, não é o americano típico. O americano, como qualquer outro povo, prefere viver em lugares com concentração de compatriotas. É, como o brasileiro, um povo notariamente conhecido pela incapacidade de aprender língua estrangeira.
Note também que o artigo é de 7 anos atrás e que muita água rolou no país durante esse tempo. Meu palpite é de que o sentido do artigo não tenha mudado no atacado. No varejo talvez.
Mas extramente interessante. Informação que a maioria dos brasileiros desconhece e que nunca vi relatado em nenhum veículo da comunidade brasileira.
Eu posso pessoalmente afirmar que o programa de incentivos pra quem muda pro interior existe e tem sido tema constante de artigos de jornais e programas de TV. A situacao demográfica citada no artigo não só não melhorou como continua tão ruim ou pior do que a descrita.
Essa eh uma boa saída para quem quer se estabelecer no Japão sem “gastar” muito.
Existem ainda programas de incentivos bem tentadores, a maioria dos lugares eh bem distante, muitas cidades quase ou totalmente abandonadas, ausente de fábricas ou comércios que possam atrair brasileiros.Mas existem também aquelas que oferecem incentivos mais modestos e mais povoadas.
A maior dificuldades dos brasileiros eh a falta de informação e também de planejamento, já que a maioria foi ao Nihon com o intuito de trabalhar em fábrica e permanece até hoje, a estrutura para acolhê-los só aumentou e melhorou tornando bem comodo a estadia nessas condiCões.
Hoje com o desemprego em alta, espero que essa mentalidade mude entre nossos compatriotas que certamente conhecerão as outras inúmeras formas de viver e se manter no país. Ou então, farão suas malas, levarão em suas bagagens nada mais do muitas horas de zangyo como experiência e alguns verbetes básicos.
Interessante o artigo…
Mas ressalto o comentario acima de que os brasileiros em geral gostam de viver proximos aos compatriotas.Alem disso a maioria vem ao Japao contratado por empresas que dao suporte aos brasileiros, o que torna muito comoda a vida aqui, tanto que a maioria nem se preocupa ou interessa em aprander a lingua local, coisa bastante distinta observada nos demais estrangeiros que residem no pais, pois a maioria fala a lingua e sabe ler e escrever o basico pelo menos…
Portanto mesmo que seja mais barato e talvez mais vantajoso morar no interior, a maioria dos brasileiros ,creio eu, acho que jamais irao, pois para irem precisarao falar o idioma o basico para estabelecer comunicacao, alem de nao haver suporte para estrangeiros, tao pouco empresas que so contratam estrangeiros( leia-se empresas especializadas em mao de obra brasileira que oferecem total suporte)…
O que você diz é verdade e o artigo foi publicado já sabendo que não é solução pra qualquer um. O autor é americano e este povo, como o brasileiro, gosta de viver com seus compatriotas. O que ele quer então dizer?
Que há soluções DESDE QUE A PESSOA ESTEJA DISPOSTA A SER CORAJOSA E SAIBA PENSAR FORA DOS “CONFORMES”. Tudo depende de como se encara as coisas. Como diz o Robert Kiyosaki (”Pai Rico Pai Pobre”), a sua cabeça é o seu maior patrimônio. Ou sua maior fraqueza. Depende de você.
O que o autor propõe não é pra aquele que quer férias renumeradas, souguei, tsuyaku e apartamento mobiliado cedido pela empresa, balada aos Sábados e churrasco com amigos (brasileiros, claro) no Domingo. Tampouco haverá empresas contratando estrangeiros. Na verdade, não há nem empresa lá na roça.
A única coisa tipicamente americana que vejo é o uso de Engenharia Social (como conviver bem e ter uma relação de proveito mútuo com os moradores). O brasileiro é muito ruim nisso. A maioria, apesar de morar anos aqui, não tem um amigo japonês disposto a gastar 2 horas em frente do computador pra ajudá-lo a traduzir páginas de vagas do site da Hello Work. Já o autor diz que graças à essa engenharia ele conseguiu, por exemplo, carros usados (não só um mas vários ao longo dos anos) de graça dos moradores. Isso está descrito na parte 2 do artigo.
Vale a pena? O autor não depende de empreiteira e não sofre o problema de ser mandado embora. Isso porque ele não é empregado. Ele tem um outro artigo (não publicado aqui na Web Town) onde diz que comprou uma casa velha com terreno grande no meio do mato por 100.000 ienes! Não sofre portanto o problema de ser despejado pela empreiteira.
Quem sofre é o acomodado, 99% de nós, que sequer dá conta que há centenas outras maneiras de viver uma vida e de que a que ele leva pode não ser a mais apropriada para o momento….