Setor Eletrônico Japonês em Perigo, Quem Será o Próximo Após a Sharp?


Recentemente a atenção do mundo dos negócios se voltou para a Sharp, uma empresa sólida que ajudou a nação a prosperar nos últimos 60 anos por meio de sua dedicação, perícia técnica e controle de qualidade. Com a ascensão da China e da Coréia do Sul como centros de baixo custo de fabricação, a Panasonic, Canon e outras moveram a fabricação para o exterior na década de 1990. A Sharp, no entanto, decidiu manter a produção no Japão. Por um tempo, parecia que ela seria ser capaz de competir através da inovação técnica. Infelizmente a realidade alcançou as suas aspirações no ano passado e agora está claro que não só a empresa está para falir, mas que provavelmente ela já estava assim nos últimos 3-5 anos, com ilhas isoladas de sucesso (como TVs de alta definição) que não fizeram nada mais que gerar ilusões tentadoras para bancos e investidores esperançosos.

Como resultado, a empresa agora deve cerca JPY 2,5 trilhões (USD 31 bilhões) para bancos e outros detentores de debêntures, um fardo esmagador. Seus acionistas têm visto o seu patrimônio evaporar, com ações caindo de JPY 800 nesta mesma época do ano passado para apenas JPY 198 na Sexta-Feira passada (31/Jul/2012). Curiosamente, alguns dos maiores acionistas da Sharp são os mesmos bancos a quem deve dinheiro (o velho “Japan Inc” em ação). Independente de como você analisa a coisa, todos os envolvidos estão prestes a levar um ducha de água fria. A propósito, suspeitamos que parte da luta de Terry Gou do grupo Hon Hai (de Taiwan) em tentar convencer a Sharp a ser razoável na reavaliação do preço de suas ações é, provavelmente, que os bancos da Sharp estão reclamando contra as enormes perdas que eles vão ter que engolir.

A Hon Hai concordou com um preço de USD 800 milhões para uma participação de 9,8%, o que implica numa avaliação de JPY 550/ação. Agora que as ações estão sendo negociando a menos de 40% deste montante, Gou deve estar bastante irritado. Adorariamos ver uma cópia do contrato; parece dar a Hon Hai a capacidade de renegociar.

No final das contas, devido a um pagamento de JPY 362 bilhões de empréstimos bancários neste ano e JPY 200 bilhões de debêntures vencendo em Setembro do próximo ano (2013), além do fato de que o corpo gerencial da Sharp parece incapaz de emagrecer a empresa sem ajuda externa, achamos que os bancos serão obrigados a aceitar a situação. Nosso palpite é que Hon Hai terá permissão para atuar na faixa de JPY 250 ~ 300 por ação, um “premium” pequeno, e acabará obtendo controle de 20% ou mais da empresa. Isto irá efetivamente dar lhe o controle sobre a Sharp e suas tecnologias – em especial dos seus componentes para o iPhone da Apple. Esta será uma vitória espetacular para Hon Hai e uma perda enorme para o establishment japonês.

A única maneira que podemos ver da Sharp evitar este cenário é ir pedir a um fundo de investimento local ou estrangeiro a tomar uma parcela significante da empresa que poderia, então, dar ao fundo poder suficiente para começar para desmembrar a empresa e seus ativos substanciais – uma perda ainda mais vergonhosa. Não temos nenhuma dúvida de que há um número de fundos, japoneses e estrangeiros, sorrindo só de pensar na possibilidade de isso acontecer.

Ou, esticando um pouco a imaginação, talvez a Apple queira participar diretamente. Mas dada a alergia da Apple para fabricação própria, provavelmente não.

Vendo a Sharp se esquivar de sua dívida, nos perguntamos qual empresa do setor da eletrônica será a próxima.

Talvez um sinal de problema futuro pode ser visto no setor de impressoras de jato de tinta, uma área dominada pelos japoneses graças ao bloqueio virtual que faz com patentes de tecnologia de cabeça de impressão. Bem, um bloqueio com duas notáveis exceções: HP e Lexmark dos EUA. Pelo que sabemos, o líder mundial em jatos de tinta é provavelmente a HP, que de acordo com a Gartner tem 45% do mercado global. Perto dela, porém, estão a Seiko Epson (fatia de mercado desconhecida) e, em seguida, Canon e outras empresas japonesas.

Como revelado em várias desavenças legais com recicladores de cartucho de tinta no início da década de 2000, o negócio de jato de tinta é uma importante fonte de lucro para essas empresas. Ainda hoje, a HP faz cerca de USD 12 bilhões em vendas anuais de cartuchos de jato de tinta e são responsáveis por cerca de 20% do lucro global da companhia! O segredo é que cada pacotinho de tinta tem uma margem de lucro de cerca de 70%.

Esses números trabalham de forma semelhante para a Epson e Canon e, assim, são importantes fontes de receita. O problema é que o mercado de jato de tinta em si está encolhendo globalmente na medida em que mais e mais consumidores preferem manter seus dados em dispositivos móveis e não precisam de papel impresso. A HP neste ano disse que este afastamento dos consumidores da impressão caseira foi uma das principais fontes de dor para a empresa e que eles estimam que a indústria de jato de tinta caiu cerca de 3% este ano. Outras estimativas colocam a diminuição num ritmo ainda maior.

Independente de qual estatística esteja correta, o fato é de que nem tudo vai bem na indústria de jato de tinta e isto provavelmente é de grande preocupação para a Seiko Epson, que ganha cerca de 50% de suas receitas através de jatos de tinta. Sim, assim como outros fabricantes, anunciaram uma reorientação para o mercado empresarial como um escape da punição que estão levando em vendas ao consumidor. Mesmo assim, suas ações perderam mais de 50% de seu valor desde Março deste ano (2012). Dado o anúncio na semana passada de que o quinto ou sexto do mercado, a Lexmark, está caindo fora, as ações da Seiko Epson podem subir temporariamente com a perda de um competidor mas a longo prazo elas devem cair mais ainda.

A razão para dizermos isso é que a Lexmark anunciou que eles estarão vendendo o seu patrimônio intelectual a qualquer um interessado em comprar. Até agora os japoneses e HP/Lexmark tem mantido a Samsung da Coréia, Ninestar da China e outros fabricantes de baixo custo (como a Hon Hai) fora deste segmento de alto lucro por meio de patentes. Mas comprando o patrimônio intelectual da Lexmark, qualquer uma dessas empresas estarão capazes de abrir a porta para uma grande parte do mercado global – na medida em que se mantenham fiéis à sua estratégia de preços baixos no que diz respeito a seus cartuchos de tinta. Este cenário causaria estragos nos participantes existentes do mercado, em particular a HP e a Seiko Epson.

Por este motivo achamos que a ações da Seiko Epson irão cair nos próximos meses, especialmente se Lexmark for em frente e vender para os chineses.

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[Nota do Editor: comentário pelo autor sobre notícia sobre o assunto após a redação do artigo acima]

Com o CEO da Hon Hai de Taiwan deixando o Japão de repente, o investimento pendente de JPY 700 bilhões na Sharp agora está perigando. Sem este investimento, a Sharp fica sob extrema pressão para adiar pagamentos de banco e vários credores e simplesmente para permanecer aberta. Como resultado, a S&P abaixou a classificação da Sharp para status de “junk”, a pior classificação que a empresa recebeu. O cerne do problema com a Hon Hai é o preço da ações da Sharp caindo drasticamente, causado pelo fato de que a empresa perdeu JPY 138 bilhões no primeiro trimestre deste ano fiscal e que, infelizmente, espera mais tinta vermelha neste trimestre. (Fonte: Japan Times de 1 de setembro de 2012)

(c) Terrie Lloyd, www.japaninc.com
Publicado originalmente em 3/Set/2012
Traduzido pela Web Town com a devida autorização do autor.



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